quinta-feira, 14 de abril de 2016

As festas de São Benedito, em Aparecida SP, e da Misericórdia, Em Cachoeira Paulista SP

Jorge Onofre, Edgard, Roberto e Zé Leocãdio em 
frente da catedral.
Relato sobre a festa de São Benedito, em Aparecida-SP, e a da Misericórdia, em Cachoeira Paulista-SP

A semana parecia longa, pois a ansiedade aumentava até chegar o momento da partida para mais uma daquelas viagens nas quais se vai tratar de algo importante e, às vezes, preponderante em nossas vidas. Era 1° de abril de 2016, conhecido tradicionalmente como o dia da mentira, dia das petas. Mas era um grande dia, talvez o mais esperado do ano por minha querida Cátia, eterna companheira de luta, e por mim.  O dia estava esplendoroso naquela sexta-feira, acordamos por volta das 7h e o Sol já nos recebia com seus raios brilhantes e calorosos, oferecendo-nos a belíssima expectativa de uma boa viagem.

Seguimos direto para Cachoeira Paulista, ao encontro da Comunidade Canção Nova, onde a voz de Deus, como em qualquer outro lugar, se faz imperativa em nossas vidas, feitas tão somente como um culto à simplicidade.  Na lembrança fica a gloriosa sensação de mais um ano de batalha vencida durante o Ano da Misericórdia. Saímos por volta das 13h e chegamos à Cachoeira Paulista às 15h30. Procuramos ir direto assistir à missa que já iniciara às 15h, participando ainda de boa parte da cerimônia. Após à missa fomos para a aconchegante Pousada Quinta Nova, reservada previamente por minha organizada companheira.

Repouso confortável
Depois de repousarmos confortavelmente, no outro dia seguimos para Aparecida, a fim de participarmos da linda festa de São Benedito, como sempre transbordando de alegria e emoção. Escolhemos um ponto estratégico para ver as mais de 100 bandas de congadas do Brasil que por ali deveriam passar com seus maravilhosos e afinados cânticos religiosos e suas exuberantes vestimentas. Meu desejo era ter condições de assistir detidamente a todas, sem deixar escapar o menor movimento, mas o cansaço, lembrando a frase do saudoso Zé Rico, da dupla com seu amigo Milionário, “me dominou”, ou quase me dominou. Apesar disso, tivemos a felicidade de fotografar o simpático barbudo da banda de Pouso Alegre-MG, fato que não tinha sido possível no ano passado. Ao avistar uma criança portando uma linda bandeira, dobrei os joelhos junto dela, para que ficássemos do mesmo tamanho, simbólica e literalmente. Era a Banda Tupy, de Belo Horizonte, cuja passagem nos remeteu ao nosso grande colega ex-seminarista, Tupy Guarany Pedro Paraguaçu Amorim da Silva.

Bandas de congado é o que não faltou
Não vamos citar todos os nomes das bandas, conforme já mencionado, pois seria impossível sem prévia e minuciosa pesquisa. Mas mesmo assim lembraremos alguns nomes das que presenciamos passar: Banda de Barroso que ostentava uma linda bandeira de Nossa Senhora do Rosário; Cachoeira da Prata-MG; Catalão-GO; Nova Serrana-MG; Lagoa da Prata-MG; Banda Andorinha, de Lagoa da Prata-MG; Taquara-MG; Banda Branca, de São José dos Campos-SP;  Santo Antônio dos Montes-MG; Banda  Moçambique de Nossa Senhora da Conceição, Sete Lagoas-MG. Além dessas, havia diversas bandas de uma mesma cidade, como Conselheiro Lafaiete,  Vespasiano-MG,  Sabará, Piausinho-MG e outas tantas que perdemos a conta.

Lá estava a nossa banda Moçambique
Não! Como haveríamos de perder a conta e a nossa banda, afora a homenagem a São Benedito e à querida Mãezinha Nossa Senhora Aparecida, a quem, depois de Deus, amamos sobre todas as coisas? Nosso desejo era encontrar as bandas oliveirenses, pois não demorou muito e lá vinha nossa querida Moçambique entoando maravilhas em homenagem à Mãe Maria. Ao avistá-la, não me contive, mergulhei, como se congado fosse, em meio a meus conterrâneos. Emocionei-me bastante quando ouvi de um amigo ao pé do ouvido: “Mais um de uma sequência que virá.” Para quem sabe ler um olho é um olho mesmo, pois os meus não resistiram e as lágrimas deslizaram abundantemente pelo rosto, abracei quatro componentes desejando homenagear todos, mas procurei fazê-lo com muito cuidado, pois o ritmo não pode atravessar.  Até o enorme sino do futuro campanário me pareceu envergonhado, pois permaneceu de boca para baixo, se é que sino tem boca, pois não saberia se seu toque poderia embaçar aquele som formado pela junção do oceano de bandas adentrando o Santuário da Mãe. Ficamos pesarosos, pois, diante daquela multidão, não conseguimos falar com os Marujos do Prudente, banda que também é oliveirense, mas deixamos recomendações indispensáveis de quem os prestigia sempre. Para complementar, aqui desejamos muitas felicidades para todos os seus componentes.

Almoçamos em Aparecida e voltamos a Cachoeira Paulista por volta das 16h. Fomos direto para a Pousada Quinta Nova, encontrar Dona Silvia e seu esposo Fernando, que têm como lema tratar bem seus hóspedes, a tal ponto que cada um se sente em sua própria casa. Naquele pedacinho de céu, tanto os proprietários quanto os colaboradores tratam todos com dignidade, respeito e muito carinho. Este reconhecimento não significa nenhum exagero, pois era voz uníssona dos hóspedes que lá estavam. Coincidentemente encontramos um simpaticíssimo casal de Conselheiro Lafaiete com três lindas filhas, e o mais admirável é que eles conheciam Senhora de Oliveira, coisa rara de acontecer em nossas andanças. Conversávamos como se fôssemos velhos conhecidos, porém sentimo-nos na obrigação de preservar seus nomes, pois este texto se destina à publicação. Por volta das 22h saímos um pouquinho para ver a movimentação na cidade e logo retornamos àquela acolhedora e confortável pousada para nos deliciar com um belo sono. Durante a estada,  a todo instante nos foram oferecidos café e outras iguarias e, quando resolvemos saborear um delicioso jantar, a própria Dona Silvia, para nos poupar do trabalho, cuidou de solicitá-lo a um bom restaurante da cidade.

A festa da Misericórdia nos aguardava no outro dia, pasmem! Para conseguir um lugar no Rincão do Meu Senhor, a fim de participar da Santa Missa que começaria às 15h, necessário se fez, já com alguma dificuldade, irmos às 9h40, isso mesmo: às 9h40 e ali aguardarmos até a hora da Santa Missa, que seria presidida pelo grande sacerdote e  pensador, Padre Fábio de Melo. Durante a cerimônia o sacerdote proferiu uma homilia inesquecível, exposta com simplicidade e esbanjando simpatia e sabedoria. Falou da insondável misericórdia de Deus para com os miseráveis pecadores, que somos nós. Antes da missa, porém, tivemos a honra de receber minha querida filha Narinha, meu neto Chiquinho,
As médicas  Rita e  Nara, esta com o filho
Chiquinho (deitado)

Núbia e a Dra. Rita de Cássia que levaria almoço para Cátia e para mim, lá no interior do Rincão. A deliciosa comida chegou a nossas mãos através dos organizadores do evento e almoçamos ali mesmo. Infelizmente não foi possível eles entrarem, pois nem a melhor boa vontade do mundo os colocaria no interior do Rincão, mesmo assim ficaram felizes se alojando no gramado que fica na parte externa.

Núbia
Como se não bastasse tanta alegria, o Padre Fábio nos deu a absolvição dos pecados de pouca relevância, deixando bem claro que quem tivesse pecado grave deveria procurar um sacerdote para o sacramento da santa confissão. Esta possibilidade é a mais linda dentro da infinita misericórdia de Deus; chama-se oportunidade de salvação para todos nós. O Padre Fábio, entre tantas outras narrativas, contou também uma historinha ligada a suas traquinagens de criança. Lembrou de uma xícara centenária que marcava lugar na cristaleira da casa de sua mãe, porcelana importada e outras tantas qualidades, afora ter sido herança de seus tataravôs, ou seja, quase uma relíquia. Num determinado dia em que sua mãe saíra de casa ele, igual a qualquer criança  já com Q. I. à frente de seu tempo, resolveu verificar o mistério daquela xícara tão bem acondicionada. Sem mais nem menos, o que é normal, a xícara lhe cai das mãos e se divide em incontáveis caquinhos. Apavorado, num impulso imperceptível olhou para todos os lados e, quase no mesmo instante, viu tudo que não gostaria de constatar pelo menos naquele momento: sua irmã mais velha, sua algoz, de olhos verdes, que deveria ser linda, mas com a péssima mania de informar intempestivamente aos adultos todos os acontecimentos indesejáveis que ocorriam na casa. E o pior de tudo, ou talvez o melhor, não fazia às escondidas, anunciava que ia falar e o cumpria exatamente como o prometido.

A mãe do Padre Fábio era mulher enérgica, porém sábia, qualidade que, diga-se de passagem, sendo mãe do Padre não é de se esperar outra coisa. Mal acabara de chegar e sua irmã foi logo relatando tudo que ali se passara. Sua mãezinha, com a voz cheia de docilidade, o chamou: “Fabinho!” Só este chamamento inicial já o tranquilizou, pois se estivesse brava seria: “Fábio José!” A esta altura o Fabinho se encontrava escondido debaixo da cama. Ao perceber que sua mãe o procurava, foi se apresentando aos poucos, mostrando uma pequena mecha de seus cabelos, para que ela pudesse perceber sua presença paulatinamente. Naquela hora, o pequeno Fábio ainda não tinha plena certeza do que poderia lhe aguardar, contudo resolveu se apresentar à matriarca e, qual foi sua surpresa quando sua mãe acariciando seus cabelos lhe disse: “Aquela xícara era de grande valor, não por ser porcelana, mas pelas memórias ali contidas. Mas olha, meu filho, você vale muito mais que milhares de xícaras, até que fosse de puro ouro”. Tudo naquela historinha do sacerdote foi para nos mostrar que somos muito mais preciosos aos olhos de Deus que todas as mazelas, todos os pecados e todas as misérias em que possamos estar mergulhados até o pescoço. Deus é pura misericórdia e nos ama por pior que sejamos, por mais xícaras que possamos ter quebrado no decorrer da vida, pois somos falhos, mesmo com xícaras espatifadas. Entretanto, é bom que juntemos os caquinhos e os apresentemos a Deus, Ele irá nos acariciar os cabelos, exatamente como sua mãe fez. Entre tantas reflexões trazidas pelo Padre Melo, houve aquela em que ele falou sobre a metáfora utilizada quando se exprime qualquer coisa como se fosse de envolvimento do coração. Na verdade, esta é uma responsabilidade da mente, pois, embora o coração seja um órgão vital, de suma importância para a vida humana, não é um órgão consciente, portanto não pensa.

Havíamos combinado de voltar neste mesmo domingo, mas o congestionamento nos fez permanecer mais uma noite naquela maravilhosa pousada.   Ah! De volta do Rincão tivemos o prazer de dar carona a uma senhora que nos autorizou citar seu nome neste relato, pelo fato de ser organizadora de caravanas, pois “seria quase uma propaganda”. Trata-se da simpática Dona Vera Pereira e duas freiras peruanas, todas residentes no Rio de Janeiro, que, ao descer do carro, nos agradeceram com um sorriso encantador, desejando que Deus nos abençoasse para sempre. Isso é tudo que precisamos. Como devotos da querida santinha polonesa, Santa Irmã Maria Faustina Kowalska, Secretária da Divina Misericórdia, que também era uma freira, ficamos encantados, pois tudo que fizemos se resumia no espírito do evento já mencionado: a festa da Misericórdia! Neste entusiasmo de boa hospedagem nos despedimos na segunda feira 05 de abril de 2016.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Entronização da imagem de Jesus Crucificado na Capela de Santana



Por Edgard Alfenas
Foto 1 Chegada do
crucifixado à capela 

O piedoso evento ocorreu com a celebração do nosso Padre Luiz Miguel, no município de Senhora de Oliveira, no domingo, dia 4 de outubro de 2015. Saímos em carreata com destino a Santana, um pequeno lugarejo de pessoas honradas, acolhedoras e hospitaleiras. Trata-se de uma bucólica e pacata povoação, berço de vários filhos ilustres, dos quais não me atrevo citar nomes para não cometer injustiça. A memória, já um pouco cansada pela ação natural do tempo, pode aprontar inesperada traição.

Foto 2 Os animais pareciam saber
da importância do momento 
 A carreata seguiu por volta das 16 horas, depois da linda cavalgada na qual os animais pareciam entender a imponência da festa, pois rodopiavam empolgados nas patas traseiras, apresentando um belo espetáculo.
Foto 3 houve carreata
Com as honras da hospitalidade do nosso amigo Dibanda, nos foi oferecida uma deliciosa feijoada, acompanhada de arroz e couve sem nenhum tipo de agrotóxico.


Foto 4 O autor na hora da feijoada
Fartura nas panelas e pratos cheios, os convidados esbarravam uns aos outros, pois àquela altura do campeonato, ordenada pelo estômago, a fome já dava seus sinais de pedinte e lá fomos nós acatá-los de bom grado. Antes, porém, o Padre Luiz Miguel, nosso querido pároco de Senhora de Oliveira celebrara a Santa Missa, quando pudemos literalmente alimentar a nossa alma na divina espiritualidade com a Santa Comunhão. A seguir, o
Foto 5 Muita gente boa compa-
receu
Padre Luiz Miguel procedeu à bênção da imagem de Jesus Crucificado que seria entronizada na Capela. Do seu altar foi furtada já há alguns anos a imagem de Nossa Senhora Santana, ou seja, Santa Ana, fato que infelizmente até hoje não teve sua história desenredada convenientemente.
Foto 6 A bíblia é exibida para os
presentes
Para quem não sabe: Santa Ana e São Joaquim foram os pais de Maria, Nossa Senhora e Mãe da Igreja.
A essa Nossa Senhora Medianeira suplico todos os dias interseção para todos nós, na certeza de que ela nos atenderá, pois é a Mãe de Misericórdia e nossa advogada junto a Jesus. Desta forma, podemos admitir com carinho e devoção que os queridos Santa Ana e São Joaquim são nossos avós maternos, como foram de Jesus, Nosso Senhor e Salvador. A Ele dedico todos os dias minha oração: "Jesus, eu confio em Vós. Tende misericórdia de nós”.
Foto 7 Nos bastidores, a conversa com um casal amigo
Durante todo o tempo em que contemplei aquele crucifixo, minha mente repetia incessantemente: "Pela Sua Dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro". "Ó Sangue e Água que jorrastes do Coração de Jesus, como Fonte de Misericórdia para nós, eu confio em Vós".

Congados de Senhora de Oliveira abrilhantam festa em Aparecida

por Edgard 


Finalmente, veio a   Banda Moçambique entoando"Viva
Maria no Céu"
Não podemos deixar de nos manifestar sobre alguns acontecimentos na Festa de São Benedito e na Festa da Misericórdia, por sua relevância no calendário católico em nossa região.

Em 12 de abril de 2015, se apresentaram 70 agremiações da congada no evento de Aparecida, sendo duas delas de Senhora de Oliveira, que não deixaram a peteca cair em nenhum momento. Emocionamo-nos ao ver nossa banda de congos saindo do Santuário, com sua cantoria maravilhosa e tocando os instrumentos com grande estilo. Estávamos em um dos corredores de saída, justamente à sua espera, e já nos sentíamos frustrados, por passarem muitas bandas e nada de vir a nossa.

Finalmente, veio a Banda Moçambique que passou entoando a cantoria cujo título deduzimos ser ”Viva Maria no Céu”, pois o refrão dizia mais ou menos assim: “Viva Maria no Céu, viva Maria no Céu, com seu terço na mão contemplando o mistério. Oi, viva Maria no Céu!” Esta parte da música parecia vir do alto, por causa das vozes mais fortes. A emoção foi intensa, levando-nos até ao pranto, quando um de seus componentes quebrou o protocolo e se aproximou, sem perder o ritmo da dança ou a letra, apertou nossa mão, levantou a cabeça e ergueu os olhos em direção à imagem da Mãe Aparecida, que quase já não se alcançava mais. Este membro da congada cantou mais forte, numa demonstração de fé e carinho para sempre marcada em nosso coração, pois seu gesto pareceu representar o desejo de todos os componentes daquela agremiação. Mais tarde fomos ao encontro deles e os cumprimentamos por sua belíssima apresentação.
Achamos importantíssimo ter encontrado no evento uma moça de Conselheiro Lafaiete. Trata-se de alguém que trabalha cotidianamente para a preservação desta manifestação da cultura brasileira. É uma mulher de eloquência impar, de quem já tivemos a honra de ouvir um lindo discurso durante o encontro de bandas da congada mineira em Senhora de Oliveira. Havia também bandas de Conselheiro Lafaiete, porém ela e sua mãezinha trajavam o uniforme da nossa banda. Talvez esta moça não saiba de nossa admiração, mas somos apreciadores de seu talento há algum tempo.

Marujos do Prudente
Na festa estava também, com toda sua imponência, a agremiação Marujos, do Prudente, município de Senhora de Oliveira. Com sua cantoria nos alegrava e nos trazia à lembrança o querido e saudoso Zé César, com seu longo bigode branco. Era um dos congos que se apresentava com autêntico entusiasmo, cantando e tocando um instrumento de percussão quase de seu tamanho, a ponto de contagiar todos os apreciadores deste folclore brasileiro. De tempos em tempos, ele saltava a uma altura de quase um metro e, na volta ao chão, cadenciava o ritmo com uma batida forte da baqueta, quase furando o couro, sem perder o passo, sempre sincronizado com todos os colegas.


 Nossas queridas agremiações nunca deixam por menos, cantam e tocam em qualquer lugar do país e do mundo, para onde forem convidadas. Sempre se apresentam com o entusiasmo e o valor já consagrados.  Parabéns aos conterrâneos, parabéns às duas agremiações por esta galhardia e pelas vozes afinadas em falsete e voz de cabeça sempre em sintonia, sem deixar perder a essência da suavidade do canto.

 
A partir da direita, Sebastião do Augusto Manja, Edgard
e Jorge do Zé do Onofre.
Um fato pitoresco que jamais se apagará de nossas memórias ocorreu durante a apresentação de uma agremiação de outra localidade cujo nome não será citado. Pareceu coisa divina: uma senhora vestida nos trajes da congada de sua terra, ao mesmo tempo em que dançava e tocava seu instrumento com uma das mãos, com a outra segurava um bebê de aproximadamente quatro meses, amamentando-o. Este gesto traz uma profunda reflexão: a senhora saía da Casa da Mãe Aparecida, obediente ao objetivo daquela gente humilde e simples de tocar, dançar e cantar, e de amamentar seu filho ao mesmo tempo. A criança não poderia ficar com fome, mas ela também não devia desaparelhar sua agremiação, retirando-se para um canto qualquer a fim de cumprir o dever de mãe. Lembra-nos a própria Maria, Mãe de Deus, que foi obediente, ao dar assentimento ao anjo que anunciou a concepção de Jesus: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça se de mim segundo a vossa vontade”. Pouco tempo depois, humilde e simples, com seu Menino Jesus no colo, em um jumentinho, trazia-O de Belém...


 Dali atravessamos uma grande passarela em um aclive que constrange as pernas e faz doer o peito. Fizemos o penoso trajeto, apesar de não podermos entrar na igreja de que tanto gostaríamos, pois fomos embarreirados pelo segurança que dizia cumprir ordens. Não questionamos sua missão, apenas nos voltamos para ir embora e ele, num gesto nobre, chamou o padre que parecia presidir o evento e lhe pediu que nos desse a benção, recebida com grande alegria.

Surpreendentemente naquele momento avistamos ao longe um conterrâneo ilustre que por ali passava: o nosso querido Cônego Agostinho Lourdes Coimbra. Ele não é o Santo Padre, mas trata-se de um padre santo. Trocamos algumas palavras agradáveis, como lhe é peculiar, e o deixamos, pois estava com suas irmãs e pareciam estar precisando de um bom descanso. Só este encontro já valeu toda a nossa viagem, pois imaginávamos tudo, menos encontrar nosso querido Padre Lurdinho, aliás querido de todos. Ele é assim conhecido por aqueles que, como nós, muito o amamos.

Sem mais, batemos em retirada: agora com destino a Cachoeira Paulista, a aproximadamente 30 quilômetros dali, onde fé é a palavra de ordem. Fundada pelo Reverendíssimo Monsenhor Jonas Abib e amigos, a TV Canção Nova representa um pedacinho do céu. Não temos dúvida de que Deus mora ali. Já não existia mais uma vaga sequer nos hotéis da cidade, todos estavam abarrotados. Como de costume, não nos apavoramos, pois este é nosso compromisso de vida, se der certo, ótimo; se não der, paciência. Entramos em um supermercado com o objetivo de comprar água mineral e, ao passarmos pelo caixa, comentamos com a moça a falta de vagas em hotéis da cidade. Entretanto, achávamos o fato compreensível, pois não reservamos hotel e, afinal, seria o dia da Festa da Misericórdia, justamente na terra onde se encontra o Santuário do Pai das Misericórdias, portanto não seria para menos.
Simone em frente ao palco do programa
. "Canção Nova Sertaneja"

Calmamente a moça abriu uma agenda amarelada pelo tempo e achou o número do telefone de uma senhora que seria dona de uma pousada e o deixara com ela. Deu-nos o número, ligamos imediatamente e fomos atendidos pela Simone, oriunda de Macapá, que nos disse: “Eu fechei a pousada, pois estou de volta para minha terra, mas podem vir que a gente dá um jeitinho”. Forneceu-nos o endereço e lá fomos nós. Antes mesmo que descêssemos do carro, já ouvimos uma voz carinhosa que dizia: “Sou Simone, entrem e sintam-se como se estivessem na casa de vocês”. Tal atitude tão nobre de uma desconhecida não costuma ser comum assim nos dias de hoje. Porém, percebemos se tratar de uma pessoa extremamente bondosa e simpática, logo nos envolvendo com sua amizade. Suas palavras resumem seu belo caráter: “Como já desmontei as outras camas, vou ceder o meu quarto para vocês e fico aqui na sala”. Recusamos educadamente, porém ela insistiu tanto que até acabamos por aceitar.  Nossos corpos suplicavam por uma boa cama, conversamos muito sobre outros assuntos, nada pertinente a nossa estadia, pois parecia sermos amigos há anos. Sem dúvida, naquele momento estava sendo selada uma nova amizade. Porém, o sono já não queria aceitar a continuidade daquela agradável conversa e logo fomos dormir.

 No dia seguinte acordamos por volta das 8 horas, convidamos a Simone para ir à missa da Misericórdia, que seria presidida pelo intelectual Padre Fábio de Mello. A missa seria às 15 horas e ela aceitou o convite com naturalidade e simpatia. Antes de ir à igreja, demos umas voltas pela cidade para comprar alguns objetos religiosos. Adquirimos um maravilhoso quadro de Jesus Misericordioso no qual fora estampado  um retrato de  Jesus, de acordo com Santa Faustina...“Pinta uma imagem de acordo com o modelo que estás vendo, com a inscrição: Jesus, eu confio em Vós” (Diário, 47).“Eu mesmo te darei muitas ordens diretamente, mas atrasarei e farei depender de outros a possibilidade de execução das mesmas. (...) Deves saber, minha filha, que esse sacrifício durará até a morte” (Diário, 923).

Voltamos para a casa da Simone que, a essa altura, não era mais uma pousada, mas o lar de uma amiga. Ela já estava vestida apropriadamente para ir à Casa do Senhor e, quando lá chegamos às 14 horas, encontramos o Rincão com seus 1.800 m² lotados. Transformamos o chão de cimento liso em nossas cadeiras, de onde assistimos confortavelmente à Santa Missa. Não desfazendo dos demais sacerdotes, na pregação do Padre Fábio de Mello não se vê uma só palavra vazia, não se perde nada, até mesmo seu sorriso tem determinado fundamento. Participamos atentamente  da cerimônia e tivemos várias graças alcançadas. Temos certeza de que ali aprendemos a valorizar  mais ainda, durante as 24 horas do dia, a misericórdia de Jesus e de Deus, nosso Pai. Saímos cheios de sua misericórdia daquele Rincão superlotado, mas com uma sensação de paz, ternura e alegria. Terminada a Santa missa, fomos assistir a um programa sertanejo da TV Canção Nova, que estreara naquela tarde, das 18h30 às 19h30. Voltamos à casa da Simone, trocamos telefones e endereços, e viemos embora. Foi com pesar que pusemos o carro na estrada, regressando à nossa casa. Ah! O programa Canção Nova Sertaneja promete continuar, devendo acontecer ao vivo todos os domingos, às 18h30. Não percam, pois é ótimo!

terça-feira, 20 de outubro de 2015

CÍRIO DE NAZARÉ NA CASA DE NAZARÉ

  
Nossa meta, participar
do Círio de Nazaré
No dia 8 de outubro de 2015 (quinta-feira), nossa querida filha Tatiane nos levou ao Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, de onde partiríamos às 17h50, com destino a Belém-PA. Fomos visitar um grande amigo e participar dos festejos dos Círios de Nazaré, uma das maiores festas religiosas do mundo. Houve escala em Brasília, aonde chegamos à noite e a fome já apertava. Então, fomos atender a reclamação do estômago que não é fã de longas esperas. Sentamo-nos e colocamos as bagagens de mão em duas cadeiras bem diante de nossos olhos. Todo cuidado é pouco e, além do mais, estávamos em Brasília, palco dos delitos mais escabrosos com relação a tomar posse do alheio...
Viviane e Rafael
Enquanto jantávamos, fomos agradavelmente surpreendidos pela chegada do simpático trio oliveirense: Rafael, Viviane e a linda filha do casal. Viviane exclamou, igualmente surpresa: “Como o mundo é pequeno!” Entretanto, logo saíram apressados, pois já estava quase na hora do voo a Fortaleza para onde foram, com certeza, se deliciar nas praias do Ceará, como Jericoacoara, por exemplo.
Como bons caipiras, Cátia e eu nos aproximamos das laterais de vidro com vista para a pista e ficamos apreciando o movimento incessante dos aviões. A infância volta a cada instante nas recordações do roceiro e um filme me embaralha o pensamento: lembrava-me das corridas que meu irmão e eu fazíamos morro acima para assistir mais de perto ao voo dos aviões numa altura imensurável. Entretanto, na maioria das vezes, avistávamos tão somente o rastro de fumaça por alguns instantes no céu azul de nossa querida terra, após o avião ter passado. O sacrifício de ficar com o pescoço esticado para cima recebia apenas a pequena recompensa de avistar o avião no tamanho de uma andorinha sobrevoando ao redor da igreja de Senhora de Oliveira.
Até os óculos caíram de vergonha.
É mentira, Cátia?
Nossos traseiros emagrecidos sofriam muito com aquela cansativa espera nos bancos duros do aeroporto, tais como fossem de pedra. Tentei arredar a mesa do lugar que parecia ser aparafusada ao piso. Ao me aproximar para conferir se era realmente cravada no chão, até os óculos, envergonhados,caíram do meu rosto. Aquelas mesas jamais foram nem poderiam ser atadas a algo imóvel, pois dificultaria a limpeza até para os mais habilidosos faxineiros. Consciente de minha fraqueza, por ser incapaz de mover a mesa que talvez não fosse tão pesada assim, só me restou rir de mim próprio, com as forças já corroídas pela idade. Por pura coercibilidade, me vi coagido a trocar as cadeiras, por serem mais leves e compatíveis com minha força, ou fraqueza.  Talvez seja mais certo admitir logo a fraqueza, que já se manifesta paulatinamente por todo meu corpo, certamente reclamando do peso dos anos.
Não reparem
Enquanto isso, uma página do Facebook fofoqueiro nos mostrava Maria Zelina, Bete de Filhinha e Ângela do Carmo Rocha em Londres, certamente em algum restaurante degustando as delícias do fishand chips. Esse prato consiste em peixe empanado frito e batatas fritas, uma delícia de se comer no país da eterna Rainha Elizabeth.  Só de pensar, a boca já ficava cheia d’água. E nós? Macarrão integral, duro e encaracolado boiando no molho de tomate, comido no Spoleto do aeroporto internacional na terra da Dilma. É mole ou quer mais? 
Só conseguimos sair de Brasília por volta da meia-noite. Crescia a expectativa em chegar a Belém, para participar da sagrada Festa do Círio de Nazaré e visitar Nonato, Nazaré, seus filhos, respectivas esposa e noivas, e a alegria da casa: seus quatro netinhos maravilhosos. Como todas as crianças, vivem entre tapas e beijos, mas no final ficam os quatro felizes, pois a vovó sabe controlar os possíveis conflitos, a ponto de quebrar o dedo, se preciso for. Dizem que mineiro não perde o trem e a Cátia foi bem mais apressadinha, querendo até furar a fila.  Pedi clemência aos demais passageiros e pudemos encontrar calmamente nosso assento quase na cozinha do Boeing. Alheio a qualquer turbulência, fechei os olhos e me abandonei por inteiro na poltrona da aeronave. Só fui novamente dar conta da minha existência com os puxões da Cátia por volta da 1h30, pois já estávamos em Belém.
Preocupados com nossa bagagem na esteira, não percebemos logo o encanto da hospitalidade do Coronel Nonato e de sua esposa Nazaré que já se manifestava oculta e surpreendentemente. Eles nos fotografavam através dos vidros da sala de desembarque e nos davam as boas vindas com um sorriso de felicidade. Enquanto isso, apreciávamos um grupo de artistas tocando e dançando o carimbó, uma música típica do Pará. Já eram 2h da madrugada, quando entramos no carro do coronel e da Nazaré, que nos aguardavam sempre muito amáveis. Fomos direto para sua residência, onde continuaram demonstrando ser inigualáveis anfitriões, embora o significado dessa palavra não comporte tanta gentileza de que fomos alvos, pois mais pareciam se tratar de nossos irmãos e cunhados ao mesmo tempo.
Avó é mãe com açúcar, e o avô registra tanta doçura.
Nazaré e Cátia, abatidas pelo cansaço, foram dar satisfação aos macios travesseiros e aconchegantes colchões. Nonato e eu ficamos trocando ideias até pouco mais das 3h, quando, vencidos pelo sono, ainda fomos tomar um copo de leite: o meu era gelado, o dele, quente. Essa preferência me fez lembrar meu pai Sodiga, que tomava um copo de leite quente antes de dormir, pois, segundo ele, fazia vir o sono mais rápido.

A partir da esquerda: Cátia, Edgard, Comandante Nonato, 
Nazaré, Coronel Andrei e a Major Adalmilena.
O descanso não durou tanto, pois a ansiedade pedia que já estivéssemos de pé por volta de 8 h. O café da manhã nos esperava na mesa farta de iguarias com tudo proveniente da fazenda do comandante: queijo de búfala, manteiga caseira de primeira, ovos caipiras mexidos, requeijão, leite e frutas, tais comoabiu, banana, abacaxi, melancia, açaí, manga, uvas e outras tantas que fogem à lembrança. O mais importante: todos os produtos religiosamente orgânicos. Pouco depois das 9h, chegaram um de seus filhos, o Coronel Andrei, e sua esposa, a major Adalmilena Café Duarte da Costa. O casal já nos encantava com sua simpatia e cordialidade, quando chegaram os filhinhos de Andrei e Adalmilena: Adrielle (10 anos), Andra (8 anos); Antônio José e Andrei Nonato (gêmeos de 4 ou 5 anos, aproximadamente). São crianças simpáticas, gentis, tratáveis e educadas, e logo a vovó Nazaré põe-se a brincar no meio deles, como se fosse da mesma idade. Esse comportamento comprova aquela máxima: avó é mãe com açúcar.
Depois conhecemos os outros dois filhos de Nonato e Nazaré: Adriano, engenheiro que, por opção, trabalha em banco, e é noivo da advogada Juliana; Artur é formado em Administração e, também por opção, é professor universitário. Está noivo de Elizangela. Todos ultrapassam os limites da simpatia, da cordialidade e da harmonia familiar. Percebemos ainda existirem famílias como antigamente, nas quais as crianças e adultos tomam bênção aos pais e aos avós, algo não visto tão facilmente na contemporaneidade. Fica comprovado fidedignamente que as qualidades dos avós e dos pais influenciam positivamente os filhos e os netos.
A dificuldade para entrar na procissão
do Círio. 
Aproveitamos ainda o dia 9 de outubro (sexta feira) para irmos às 18h assistir a uma palestra com a turma Canção Nova, a ser realizada na Igreja São Francisco de Assis, a Igreja dos Capuchinhos. Para nossa frustração não havia mais lugar e voltamos desapontado, algo que, em outras épocas, denominaria com o rabo entre as pernas. Mas o que não tem jeito ajeitado está. Outra frustração: fomos à loja da Canção Nova com o objetivo de comprar uma imagem de Santa Faustina e não encontramos minha santinha polonesa. Tristes e cabisbaixos, voltamos para
Padre Geffison e 
Edgard
casa do comandante. Depois, seguimos para o Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, a fim de assistir à Santa Missa presidida pelo Padre Jeferson. Na minha cabeça passava alguns acontecimentos do VI Encontro, quando me comprometi com a Mãezinha de Nazaré de estar em Belém durante os Círios, e pensei: aqui estou com a sensação de missão cumprida. 
Interessante é lembrar que, quando entrávamos no carro do comandante para algum passeio ou ir à Santa Missa, e o trânsito estava muito intenso a ponto de não haver local para estacionar, ele só olhava para a esposa e dizia: “Naza, pede a São José”. E ela pedia, não é que rapidamente aparecia uma vaga para estacionarmos? Acredite, se quiser!
Após a missa, demos umas voltas na praça e visitamos uma irmã da Nazaré que mora bem pertinho do Santuário. A demora foi pouca e logo voltamos à casa do comandante para nos deliciarmos com um apetitoso jantar, com direito a pernil a pururuca e iguarias variadas. 
Com a missionária,
Salete
No dia 10 de outubro (sábado), comentei sobre o tamanho da barba e o coronel, como em todos os momentos de sua afortunada cordialidade, me levou a uma barbearia para aparar a barba branca, que incomodava e impiedosamente revelava a minha idade. Feita a barba, fomos assistir à Santa Missa rezada pelo Padre Jeferson, na Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, por volta das 11 h. Lá encontramos a Salete, missionária da Canção Nova e, em tom de galhofa, reclamei da palestra de que não pudemos participar. Tivemos a oportunidade ver de perto o descimento da Mãe Rainha, as 12,30 h, na Basílica-Santuário de Nazaré. A imagem original de Nossa Senhora de Nazaré é retirada do Glória do Altar-mor, ficando em veneração, durante toda a quinzena, em nicho ornado no presbitério.  A cerimônia é toda organizada pelos padres barnabitas. A transladação iria sair por volta das 17,30do Colégio Gentil Bitencourt, percorrendo o mesmo trajeto do Círio em sentido contrário. Logo após a missa voltamos para casa, é hora de almoçar. Nonato e eu entabulávamos um bate-papo descontraído, tomamos uma garrafa do saboroso vinho canônico, e diante da mesa repleta de novas iguarias: camusquim de camarão, filet mignon, maniçoba, pato no tucupi, pernil à indiana, peixes variados, arroz integral com brócolis, açaí e farinha d’água para não deixar sair de minha dieta. Logo veio mousse de maracujá, o que Nonato chamaria de creme de maracujá. Logo perguntou a sua Naza: “Afinal, isso é creme ou mousse?”.  Ela respondeu, sorrindo: “Coma duas vezes; a primeira é mousse e a segunda é creme”. O casal estava sempre bem-humorado, demonstrando constante satisfação por estarmos ali, atitude que nos deixava emocionados e com saudades antecipadas pela agradável convivência.
Uma leve brisa acariciava o papo
À noite tivemos um jantar sem comentários. Depois de bem alimentados, Nonato e eu voltamos para a varanda e, com a brisa noturna a nos acariciar, conversamos sobre vários assuntos. Às vezes, voltávamos cinquenta anos e nos víamos no Seminário dos padres crúzios, holandeses de linha dura, de quem hoje agradecemos a educação recebida. A conversa se alongou até quando o sono resolveu nos convidar ao aconchegante leito que nos aguardava. Cátia já estava no terceiro sono, quando cheguei de mansinho e fui dormir, como sempre até as 8 h.
Na manhã do dia 11 de outubro (domingo), o café com variedade de frutas orgânicas da fazenda do Coronel Nonato, afora os ovos caipiras, suco de polpa de cacau, meu pão integral recheado de queijos diversos, para combinar com o café com leite que nos esperava quentinho sobre a mesa, maravilha de refeição que, a essa altura, já nos era familiar. Como mencionado no início, o casal agia como nossos irmãos, nos deixando à vontade, com total liberdade, a ponto de nos fazer imaginar que morávamos naquela casa.
Círios: mais de um milhão e quatrocentos mil fiéis.
Café no papinho, pé no caminho. Fomos ver a procissão dos Círios, na qual se estendia uma corda de 400 metros com cinco estações intercaladas com um material de metal. Como uma criança arteira, mergulhei sob os braços da corrente humana e consegui tocá-la. Entretanto, fui convidado por um guarda a me retirar, o que achei melhor não recusar e logo saí agradecendo o conselho amigo, pois ali o perigo se mistura com o sagrado. Mais de um milhão e quatrocentas mil pessoas do mundo inteiro se movimenta para trás e para frente, o que não dá para entender direito. Parece o Rio Amazonas na maré cheia, oferecendo um imponente espetáculo de bater as portas da frente, num vai e vem da cidade de Macapá.
Na arquibancada ao lado de Adriano
e Artur (filhos de Nonato e Nazaré)
Mal sabia que o comandante havia comprado ingressos para todos nós, dando a oportunidade de assistirmos das arquibancadas que eu chamaria de camarote àquela altura do cansaço. Dali assistimos tranquilos a toda a procissão dos círios.
Edgard, Francisco Pinheiro e Kelly
Por volta de meio-dia, voltamos para casa, pois já era hora de almoçar, ou melhor, de saborear as maravilhosas iguarias, sempre com a especial atenção dos simpáticos colaboradores Kelly e Francisco Pinheiro, o Chico, a quem Nazaré e o Nonato tratam com carinho como se fossem da família. Uma atitude bastante rara deveria ser imitada,se todos nós comportássemosconforme acontece entre esses colaboradores, cuja retidão e lisura estão estampadas nos rostos, e o casal Nonato e Nazaré, o mundo seria bem diferente, pois o bem atrai o bem. (aequalitas).O que nos leva a lembrar de Paulo Freire: “A humildade exprime uma das raras certezas de que estou certo: a de que ninguém é superior a ninguém”.
Uma foto-montagem simbolizando a
presença espiritual da mãe em suas
romarias.
No dia 12 de outubro, se comemorava o Dia de Nossa Senhora Aparecida e o Dia das Crianças, e por coincidência é o dia do aniversário da minha saudosa e inesquecível mãezinha, que me aguarda feliz na casa do Pai. A mesa estava abarrotada de balas e bolas e os presentes se espalhavam pelo chão da sala, pois eram bastante para promover a felicidade daqueles anjinhos, e lá estava a Nazaré brincando feliz com a criançada.
A programação começa a se definir de maneira consistente no meio espiritual às 18h com missa na Basílica, presidida pelo nosso querido Monsenhor Jonas Abib, fundador da Canção Nova. Ao ser anunciado, o sacerdote foi ovacionado por todos os participantes daquela Santa Missa e, mesmo cansado pelo peso da idade, já meio roco e com a voz fraquinha, foi aplaudido até pelo menor sorriso que dispensasse aos fiéis que o amam incondicionalmente. Após a Santa Missa, o casal simpático nos convidou para um passeio na praça, onde rapidamente vimos a luxuosa ornamentação com anjinhos luminosos, que pareciam já querer se despedir de nós e essa lembrança da proximidade da partida começava a nos entristecer.
Voltamos ao que chamaria de nossa casa para outra vez saborear as iguarias que dispensam comentários. Por força do entusiasmo, não me preocupei com o exagero na comida jantamos bem até demais. Mas deixemos isso para lá! Naquele dia, Nonato e eu ultrapassamos todos os horários permitidos pela nossa idade. Depois, Cátia e eu fomos dormir, pois viajaríamos às 3h da madrugada, proximidade que nos trazia muita tristeza.
Na hora da partida foi preciso
segurar as emoções mais fortes.
Nessa madrugada, o Coronel Nonato, com sua habitual cordialidade, se dispôs a nos levar ao aeroporto e, quase no momento de seguirmos viagem, lembrou-se de uma caixa de isopor que havia comprado e, sem dizer nada, encheu-a com a deliciosa polpa de cacau, açaí de sua fazenda, maniçoba e até uma galinha caipira já fatiada e temperada. Pasmem, meus amigos, o próprio Nonato deu logo um jeito de procurar uma fita durex daquelas mais largas que se escondia nas gavetas de seu escritório, esperando para preparar nosso presente. Ele se revelou ser um paraense com estilo dos mineiros: abarrotou a caixa nova, tampou e colou com a fita durex, rodeando-a de todas as formas para não haver perigo de abrir. Além disso, ainda tomou o cuidado de escrever meu nome, endereço e telefone na tampa, para não correr o risco de extraviar. Concluiu sua obra desenhando com uma caneta setas indicando a posição, com o aviso de "FRÁGIL". Essa, sem dúvida, trata-se de garantia e disciplina aprendidas na caserna, minimizando a possibilidade de seus amigos perderem a valiosa encomenda.
Durante a partida, procuramos nos segurar para não derramar lágrimas diante dos nossos amigos, mas não pudemos nos conter já dentro do avião. Deixar todos aqueles amigos se tornou motivo de muita saudade que ficará amargando em nosso coração, até o próximo encontro em Senhora de Oliveira, na esperança de estar junto de todos os nossos queridos easistas.
Ao nosso amigo Nonato e sua adorável Nazaré, posso afirmar que a felicidade de estar em sua casa só aumenta em cada letra que escrevo durante esse relato, por isso paro por aqui, pois uma lágrima saliente teima em me atrapalhar.
Um forte abraço a todos os easistas.