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Nossa meta, participar
do Círio de Nazaré
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No dia 8 de outubro de 2015 (quinta-feira), nossa querida
filha Tatiane nos levou ao Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, de onde
partiríamos às 17h50, com destino a Belém-PA. Fomos visitar um grande amigo e
participar dos festejos dos Círios de Nazaré, uma das maiores festas religiosas
do mundo. Houve escala em Brasília, aonde chegamos à noite e a fome já
apertava. Então, fomos atender a reclamação do estômago que não é fã de longas
esperas. Sentamo-nos e colocamos as bagagens de mão em duas cadeiras bem diante
de nossos olhos. Todo cuidado é pouco e, além do mais, estávamos em Brasília,
palco dos delitos mais escabrosos com relação a tomar posse do alheio...
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| Viviane e Rafael |
Enquanto jantávamos, fomos agradavelmente surpreendidos pela
chegada do simpático trio oliveirense: Rafael, Viviane e a linda filha do
casal. Viviane exclamou, igualmente surpresa: “Como o mundo é pequeno!”
Entretanto, logo saíram apressados, pois já estava quase na hora do voo a
Fortaleza para onde foram, com certeza, se deliciar nas praias do Ceará, como
Jericoacoara, por exemplo.
Como bons caipiras, Cátia e eu nos aproximamos das laterais de
vidro com vista para a pista e ficamos apreciando o movimento incessante dos
aviões. A infância volta a cada instante nas recordações do roceiro e um filme
me embaralha o pensamento: lembrava-me das corridas que meu irmão e eu fazíamos
morro acima para assistir mais de perto ao voo dos aviões numa altura
imensurável. Entretanto, na maioria das vezes, avistávamos tão somente o rastro
de fumaça por alguns instantes no céu azul de nossa querida terra, após o avião
ter passado. O sacrifício de ficar com o pescoço esticado para cima recebia
apenas a pequena recompensa de avistar o avião no tamanho de uma andorinha
sobrevoando ao redor da igreja de Senhora de Oliveira.
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Até os óculos caíram de vergonha.
É mentira, Cátia?
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Nossos traseiros emagrecidos sofriam muito com aquela
cansativa espera nos bancos duros do aeroporto, tais como fossem de pedra.
Tentei arredar a mesa do lugar que parecia ser aparafusada ao piso. Ao me
aproximar para conferir se era realmente cravada no chão, até os óculos,
envergonhados,caíram do meu rosto. Aquelas mesas jamais foram nem poderiam ser
atadas a algo imóvel, pois dificultaria a limpeza até para os mais habilidosos
faxineiros. Consciente de minha fraqueza, por ser incapaz de mover a mesa que
talvez não fosse tão pesada assim, só me restou rir de mim próprio, com as
forças já corroídas pela idade. Por pura coercibilidade, me vi coagido a trocar
as cadeiras, por serem mais leves e compatíveis com minha força, ou
fraqueza. Talvez seja mais certo admitir
logo a fraqueza, que já se manifesta paulatinamente por todo meu corpo,
certamente reclamando do peso dos anos.
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| Não reparem |
Enquanto isso, uma página do Facebook fofoqueiro nos mostrava
Maria Zelina, Bete de Filhinha e Ângela do Carmo Rocha em Londres, certamente
em algum restaurante degustando as delícias do fishand chips. Esse prato
consiste em peixe empanado frito e batatas fritas, uma delícia de se comer no
país da eterna Rainha Elizabeth. Só de
pensar, a boca já ficava cheia d’água. E nós? Macarrão integral, duro e
encaracolado boiando no molho de tomate, comido no Spoleto do aeroporto
internacional na terra da Dilma. É mole ou quer mais?
Só conseguimos sair de Brasília por volta da meia-noite.
Crescia a expectativa em chegar a Belém, para participar da sagrada Festa do
Círio de Nazaré e visitar Nonato, Nazaré, seus filhos, respectivas esposa e
noivas, e a alegria da casa: seus quatro netinhos maravilhosos. Como todas as
crianças, vivem entre tapas e beijos, mas no final ficam os quatro felizes,
pois a vovó sabe controlar os possíveis conflitos, a ponto de quebrar o dedo,
se preciso for. Dizem que mineiro não perde o trem e a Cátia foi bem mais
apressadinha, querendo até furar a fila.
Pedi clemência aos demais passageiros e pudemos encontrar calmamente
nosso assento quase na cozinha do Boeing. Alheio a qualquer turbulência, fechei
os olhos e me abandonei por inteiro na poltrona da aeronave. Só fui novamente
dar conta da minha existência com os puxões da Cátia por volta da 1h30, pois já
estávamos em Belém.
Preocupados com nossa bagagem na esteira, não percebemos logo
o encanto da hospitalidade do Coronel Nonato e de sua esposa Nazaré que já se
manifestava oculta e surpreendentemente. Eles nos fotografavam através dos
vidros da sala de desembarque e nos davam as boas vindas com um sorriso de
felicidade. Enquanto isso, apreciávamos um grupo de artistas tocando e dançando
o carimbó, uma música típica do Pará. Já eram 2h da madrugada, quando entramos
no carro do coronel e da Nazaré, que nos aguardavam sempre muito amáveis. Fomos
direto para sua residência, onde continuaram demonstrando ser inigualáveis
anfitriões, embora o significado dessa palavra não comporte tanta gentileza de
que fomos alvos, pois mais pareciam se tratar de nossos irmãos e cunhados ao
mesmo tempo.
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| Avó é mãe com açúcar, e o avô registra tanta doçura. |
Nazaré e Cátia, abatidas pelo cansaço, foram dar satisfação
aos macios travesseiros e aconchegantes colchões. Nonato e eu ficamos trocando
ideias até pouco mais das 3h, quando, vencidos pelo sono, ainda fomos tomar um
copo de leite: o meu era gelado, o dele, quente. Essa preferência me fez
lembrar meu pai Sodiga, que tomava um copo de leite quente antes de dormir,
pois, segundo ele, fazia vir o sono mais rápido.
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A partir da esquerda: Cátia, Edgard, Comandante Nonato,
Nazaré, Coronel Andrei e a Major Adalmilena.
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O descanso não durou tanto, pois a ansiedade pedia que já estivéssemos
de pé por volta de 8 h. O café da manhã nos esperava na mesa farta de iguarias
com tudo proveniente da fazenda do comandante: queijo de búfala, manteiga
caseira de primeira, ovos caipiras mexidos, requeijão, leite e frutas, tais
comoabiu, banana, abacaxi, melancia, açaí, manga, uvas e outras tantas que
fogem à lembrança. O mais importante: todos os produtos religiosamente
orgânicos. Pouco depois das 9h, chegaram um de seus filhos, o Coronel Andrei, e
sua esposa, a major Adalmilena Café Duarte da Costa. O casal já nos encantava
com sua simpatia e cordialidade, quando chegaram os filhinhos de Andrei e
Adalmilena: Adrielle (10 anos), Andra (8 anos); Antônio José e Andrei Nonato
(gêmeos de 4 ou 5 anos, aproximadamente). São crianças simpáticas, gentis,
tratáveis e educadas, e logo a vovó Nazaré põe-se a brincar no meio deles, como
se fosse da mesma idade. Esse comportamento comprova aquela máxima: avó é mãe
com açúcar.
Depois conhecemos os outros dois filhos de Nonato e Nazaré:
Adriano, engenheiro que, por opção, trabalha em banco, e é noivo da advogada
Juliana; Artur é formado em Administração e, também por opção, é professor
universitário. Está noivo de Elizangela. Todos ultrapassam os limites da
simpatia, da cordialidade e da harmonia familiar. Percebemos ainda existirem
famílias como antigamente, nas quais as crianças e adultos tomam bênção aos
pais e aos avós, algo não visto tão facilmente na contemporaneidade. Fica
comprovado fidedignamente que as qualidades dos avós e dos pais influenciam
positivamente os filhos e os netos.
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A dificuldade para entrar na procissão
do Círio.
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Aproveitamos ainda o dia 9 de outubro (sexta feira) para
irmos às 18h assistir a uma palestra com a turma Canção Nova, a ser realizada
na Igreja São Francisco de Assis, a Igreja dos Capuchinhos. Para nossa
frustração não havia mais lugar e voltamos desapontado, algo que, em outras
épocas, denominaria com o rabo entre as pernas. Mas o que não tem jeito
ajeitado está. Outra frustração: fomos à loja da Canção Nova com o objetivo de
comprar uma imagem de Santa Faustina e não encontramos minha santinha polonesa.
Tristes e cabisbaixos, voltamos para
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Padre Geffison e
Edgard
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casa do comandante. Depois, seguimos para
o Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, a fim de assistir à Santa Missa
presidida pelo Padre Jeferson. Na minha cabeça passava alguns acontecimentos do
VI Encontro, quando me comprometi com a Mãezinha de Nazaré de estar em Belém
durante os Círios, e pensei: aqui estou com a sensação de missão cumprida.
Interessante é lembrar que, quando entrávamos no carro do
comandante para algum passeio ou ir à Santa Missa, e o trânsito estava muito
intenso a ponto de não haver local para estacionar, ele só olhava para a esposa
e dizia: “Naza, pede a São José”. E ela pedia, não é que rapidamente aparecia
uma vaga para estacionarmos? Acredite, se quiser!
Após a missa, demos umas voltas na praça e visitamos uma irmã
da Nazaré que mora bem pertinho do Santuário. A demora foi pouca e logo
voltamos à casa do comandante para nos deliciarmos com um apetitoso jantar, com
direito a pernil a pururuca e iguarias variadas.
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Com a missionária,
Salete
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No dia 10 de outubro (sábado), comentei sobre o tamanho da
barba e o coronel, como em todos os momentos de sua afortunada cordialidade, me
levou a uma barbearia para aparar a barba branca, que incomodava e
impiedosamente revelava a minha idade. Feita a barba, fomos assistir à Santa
Missa rezada pelo Padre Jeferson, na Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, por
volta das 11 h. Lá encontramos a Salete, missionária da Canção Nova e, em tom
de galhofa, reclamei da palestra de que não pudemos participar. Tivemos
a oportunidade ver de perto o descimento da Mãe Rainha, as 12,30 h, na
Basílica-Santuário de Nazaré. A imagem original de Nossa Senhora de Nazaré é
retirada do Glória do Altar-mor, ficando em veneração, durante toda a quinzena,
em nicho ornado no presbitério. A
cerimônia é toda organizada pelos padres barnabitas. A transladação iria sair
por volta das 17,30do Colégio Gentil Bitencourt, percorrendo o mesmo trajeto do
Círio em sentido contrário. Logo após a missa voltamos para casa, é hora de
almoçar. Nonato e eu entabulávamos um bate-papo descontraído, tomamos uma
garrafa do saboroso vinho canônico, e diante da mesa repleta de novas iguarias:
camusquim de camarão, filet mignon, maniçoba, pato no tucupi, pernil à indiana,
peixes variados, arroz integral com brócolis, açaí e farinha d’água para não
deixar sair de minha dieta. Logo veio mousse de maracujá, o que Nonato chamaria
de creme de maracujá. Logo perguntou a sua Naza: “Afinal, isso é creme ou
mousse?”. Ela respondeu, sorrindo: “Coma
duas vezes; a primeira é mousse e a segunda é creme”. O casal estava sempre
bem-humorado, demonstrando constante satisfação por estarmos ali, atitude que
nos deixava emocionados e com saudades antecipadas pela agradável convivência.
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| Uma leve brisa acariciava o papo |
À noite tivemos um jantar sem comentários. Depois de bem
alimentados, Nonato e eu voltamos para a varanda e, com a brisa noturna a nos
acariciar, conversamos sobre vários assuntos. Às vezes, voltávamos cinquenta
anos e nos víamos no Seminário dos padres crúzios, holandeses de linha dura, de
quem hoje agradecemos a educação recebida. A conversa se alongou até quando o
sono resolveu nos convidar ao aconchegante leito que nos aguardava. Cátia já
estava no terceiro sono, quando cheguei de mansinho e fui dormir, como sempre
até as 8 h.
Na manhã do dia 11 de outubro (domingo), o café com variedade
de frutas orgânicas da fazenda do Coronel Nonato, afora os ovos caipiras, suco
de polpa de cacau, meu pão integral recheado de queijos diversos, para combinar
com o café com leite que nos esperava quentinho sobre a mesa, maravilha de
refeição que, a essa altura, já nos era familiar. Como mencionado no início, o
casal agia como nossos irmãos, nos deixando à vontade, com total liberdade, a
ponto de nos fazer imaginar que morávamos naquela casa.
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| Círios: mais de um milhão e quatrocentos mil fiéis. |
Café no papinho, pé no caminho. Fomos ver a procissão dos
Círios, na qual se estendia uma corda de 400 metros com cinco estações
intercaladas com um material de metal. Como uma criança arteira, mergulhei sob
os braços da corrente humana e consegui tocá-la. Entretanto, fui convidado por
um guarda a me retirar, o que achei melhor não recusar e logo saí agradecendo o
conselho amigo, pois ali o perigo se mistura com o sagrado. Mais de um milhão e
quatrocentas mil pessoas do mundo inteiro se movimenta para trás e para frente,
o que não dá para entender direito. Parece o Rio Amazonas na maré cheia,
oferecendo um imponente espetáculo de bater as portas da frente, num vai e vem
da cidade de Macapá.
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Na arquibancada ao lado de Adriano
e Artur (filhos de Nonato e Nazaré) |
Mal sabia que o comandante havia comprado ingressos para
todos nós, dando a oportunidade de assistirmos das arquibancadas que eu
chamaria de camarote àquela altura do cansaço. Dali assistimos tranquilos a toda
a procissão dos círios.
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| Edgard, Francisco Pinheiro e Kelly |
Por volta de meio-dia, voltamos para casa, pois já era hora
de almoçar, ou melhor, de saborear as maravilhosas iguarias, sempre com a
especial atenção dos simpáticos colaboradores Kelly e Francisco Pinheiro, o
Chico, a quem Nazaré e o Nonato tratam com carinho como se fossem da família.
Uma atitude bastante rara deveria ser imitada,se todos nós comportássemosconforme
acontece entre esses colaboradores, cuja retidão e lisura estão estampadas nos
rostos, e o casal Nonato e Nazaré, o mundo seria bem diferente, pois o bem
atrai o bem. (aequalitas).O que nos
leva a lembrar de Paulo Freire: “A humildade exprime uma das raras certezas de
que estou certo: a de que ninguém é superior a ninguém”.
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Uma foto-montagem simbolizando a
presença espiritual da mãe em suas
romarias.
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No dia 12 de outubro, se comemorava o Dia de Nossa Senhora
Aparecida e o Dia das Crianças, e por coincidência é o dia do aniversário da
minha saudosa e inesquecível mãezinha, que me aguarda feliz na casa do Pai. A
mesa estava abarrotada de balas e bolas e os presentes se espalhavam pelo chão
da sala, pois eram bastante para promover a felicidade daqueles anjinhos, e lá
estava a Nazaré brincando feliz com a criançada.
A programação começa a se definir de maneira consistente no
meio espiritual às 18h com missa na Basílica, presidida pelo nosso querido Monsenhor
Jonas Abib, fundador da Canção Nova. Ao ser anunciado, o sacerdote foi
ovacionado por todos os participantes daquela Santa Missa e, mesmo cansado pelo
peso da idade, já meio roco e com a voz fraquinha, foi aplaudido até pelo menor
sorriso que dispensasse aos fiéis que o amam incondicionalmente. Após a Santa
Missa, o casal simpático nos convidou para um passeio na praça, onde
rapidamente vimos a luxuosa ornamentação com anjinhos luminosos, que pareciam
já querer se despedir de nós e essa lembrança da proximidade da partida
começava a nos entristecer.
Voltamos ao que chamaria de nossa casa para outra vez
saborear as iguarias que dispensam comentários. Por força do entusiasmo, não me
preocupei com o exagero na comida jantamos bem até demais. Mas deixemos isso
para lá! Naquele dia, Nonato e eu ultrapassamos todos os horários permitidos
pela nossa idade. Depois, Cátia e eu fomos dormir, pois viajaríamos às 3h da
madrugada, proximidade que nos trazia muita tristeza.
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Na hora da partida foi preciso
segurar as emoções mais fortes.
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Nessa madrugada, o Coronel Nonato, com sua habitual
cordialidade, se dispôs a nos levar ao aeroporto e, quase no momento de
seguirmos viagem, lembrou-se de uma caixa de isopor que havia comprado e, sem
dizer nada, encheu-a com a deliciosa polpa de cacau, açaí de sua fazenda,
maniçoba e até uma galinha caipira já fatiada e temperada. Pasmem, meus amigos,
o próprio Nonato deu logo um jeito de procurar uma fita durex daquelas mais
largas que se escondia nas gavetas de seu escritório, esperando para preparar
nosso presente. Ele se revelou ser um paraense com estilo dos mineiros:
abarrotou a caixa nova, tampou e colou com a fita durex, rodeando-a de todas as
formas para não haver perigo de abrir. Além disso, ainda tomou o cuidado de
escrever meu nome, endereço e telefone na tampa, para não correr o risco de
extraviar. Concluiu sua obra desenhando com uma caneta setas indicando a
posição, com o aviso de "FRÁGIL". Essa, sem dúvida, trata-se de
garantia e disciplina aprendidas na caserna, minimizando a possibilidade de
seus amigos perderem a valiosa encomenda.
Durante a partida, procuramos nos segurar para não derramar
lágrimas diante dos nossos amigos, mas não pudemos nos conter já dentro do
avião. Deixar todos aqueles amigos se tornou motivo de muita saudade que ficará
amargando em nosso coração, até o próximo encontro em Senhora de Oliveira, na
esperança de estar junto de todos os nossos queridos easistas.
Ao nosso amigo Nonato e sua adorável Nazaré, posso afirmar
que a felicidade de estar em sua casa só aumenta em cada letra que escrevo
durante esse relato, por isso paro por aqui, pois uma lágrima saliente teima em
me atrapalhar.
Um forte abraço a todos os easistas.